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sábado, outubro 11, 2003

Treino integrado nos jogos desportivos colectivos?

“Todos os treinadores falam de movimento, de ter de correr muito. Eu digo: não corram muito. O futebol é um jogo que se joga com o cérebro. Tens de estar no local certo, no momento certo, nem antes nem depois.”
(Cruiff, 2002)

1.Treino integrado
Aristóteles nos longínquos anos de 384-322 a.c. dizia que “o todo é maior do que a soma das suas partes” (Tschiene, 2000). Porém, e com tantos séculos de distância, só na década de 90, foi proposta como uma nova tendência da teoria do treino desportivo, a utilização do conceito de sinergia que “significa simplesmente que o todo é mais do que a soma das partes. Com outras palavras isso quer dizer que não há uma componente de treino que, encarada isoladamente possa ser considerada mais importante do que as outras. Só se consegue alcançar o resultado óptimo de um programa de treino, quando as suas várias componentes surgem integradas num mesmo conjunto.” (Gambetta, 1993). Isto assume particular importância porque “os factores da condição física foram durante muito tempo o tema central das teorias do treino.” (Hotz, 1999). E isto traduzia-se, nomeadamente no futebol, na utilização de exercícios em que o seu conteúdo geral se baseava sobretudo na vertente física (Bezerra, 2001). No entanto, para Tani (2001a), “os métodos e conteúdos de treino baseados na tradição, muitas vezes ainda úteis por serem os únicos disponíveis, já não garantem o sucesso na formação e treino dos atletas”. Parece-nos, então, que “é agora tempo de encontrar o meio-termo entre os dois aspectos fundamentais da performance – a condição física e a técnica – e de os colocar numa relação mais directa (de troca), tendo igualmente em conta o aspecto táctico: importa unir um tipo de compreensão sinergética da técnica – a forma de apresentação da resolução do problema integrante da táctica – e a condição física” (Hotz, 1999). É nesta conjunção dos vários factores de treino (tácticos, físicos, técnicos e psicológicos), que surge o treino integrado no qual se pretende um “desenvolvimento unitário, complexo, dos vários factores – físicos, técnicos, tácticos... – que influenciam a prestação desportiva...” (Marques, 1995). Com a adopção deste método, no momento da escolha do exercício de treino, abandona-se “de forma evidente o conteúdo geral que tinha, sobretudo na vertente física, a qual seguia de perto o exercício de treino de atletismo e passou a ser o exercício integrado.” (Bezerra, 2001). Em que este último, e segundo o mesmo autor, apresenta uma ligação directa entre as componentes física, técnica e táctica. Esta ideia é corroborada por McGown (1991), pois diz que os exercícios “devem estar próximo do que acontece nas competições.”
É nos jogos desportivos colectivos que o treino integrado assume uma maior importância, pois estes “oferecem muitas possibilidades para o desenvolvimento das habilidades e das capacidades condicionais e coordenativas, das capacidades técnicas e tácticas, bem como também das qualidades psicológicas dos atletas, fazendo aumentar a sua capacidade global de prestação motora e desportiva” (Konzag, 1991). Mas, e segundo o mesmo autor, é necessário “saber utilizar na totalidade todas as suas potencialidades formativas e educativas...”. O que leva Gambetta (1993), a afirmar que “aquilo que vai ser a garantia de se poder alcançar a optimização dos resultados, será a aplicação dos estímulos de treino no momento oportuno e na sequência correcta.” Situação que levará a uma capacidade de jogo elevada, cuja essência, como já foi referido, reside no “desenvolvimento das capacidades condicionais e coordenativas, das habilidades técnico-tácticas e das qualidades psicológicas dos praticantes” com base “na interacção e na integração que se venha a verificar entre as várias componentes.” (Konzag, 1991).
Esta abordagem global, ou treino integrado, necessita de um instrumento de controlo (Hotz, 1999). Esse instrumento é o “timing” que se caracteriza pela aptidão de “estar no momento certo, no lugar certo e com a dose óptima de força e velocidade” (Hotz, 1997; cit. Hotz, 1999), que, para além de qualidades de um processo de controlo, tem características de produto de orientação (Hotz, 1999). Na medida em que, “a junção de vários elementos é necessária para estar num momento determinado, num lugar determinado graças a uma velocidade controlada de acção e movimento assim como de uma produção de força e dosagem da energia necessária...” (Hotz,1999). Tudo aquilo que foi dito até agora está caracterizado no exemplo que Savelsbergh e Kamp (2001), nos dão, quando dizem que o treino do cabeceamento, no futebol, deve ser feito usando situações próximas do jogo que obriguem o atleta a correr para a bola e saltar. Porque, o treino com situações de saltos numa posição “fixa”, ou o cabeceamento de bolas para um jogador numa posição estática, não vai ajudar a que a cabeça seja colocada no sítio certo no momento correcto durante um jogo.

2. Treino integrado na formação dos jovens para o desporto de rendimento
“O nosso grande desafio, enquanto adultos envolvidos e preocupados com a criança, é como integrar ordem e desordem, liberdade e restrição, dedicar-nos ao esforço de síntese, para estruturar um sistema capaz de favorecer o desenvolvimento pleno das suas potencialidades. Para tanto, é preciso começar a nos preocuparmos com as dimensões macroscópicas do futuro da criança e não apenas com as dimensões microscópicas do seu presente” (Tani, 1998). Deste modo, um projecto coerente de formação desportiva deve ter por base um plano de preparação a longo prazo (Ferreira, 2000). Sendo importante, entre outras coisas, definir qual a metodologia de treino a utilizar (Marques, 1995). A escolha desse método, no entanto, deverá ser fundamentada em bases racionais (McGown, 1991). O que parece não acontecer em alguns jogos desportivos colectivos, pois Pereira (1996) afirma que “o ensino/treino do futebol é na maior parte dos casos efectuado sem um programa e métodos definidos...”. E isto acontece por vezes, porque a escolha do método (abordagem global ou parcial), que se irá utilizar, é uma tarefa complexa. No entanto, existem determinados indicadores que nos podem ajudar nessa escolha, por exemplo, “se os programas motores são específicos, e se não há grande possibilidade de transfer entre as várias tarefas, então, quando estivermos a tentar elaborar um determinado programa motor, o treino global deverá ser melhor do que o treino parcial” (McGown, 1991). Dentro da mesma linha de pensamento Marques (1995), diz que as capacidades motoras devem ser desenvolvidas de uma forma integrada porque o “nível motor é determinado pela relação de interacção entre as capacidades coordenativas e condicionais.” O que leva o mesmo autor a dizer que “no próprio desporto de rendimento, o jogo é cada vez mais recomendado na formação motora e desportiva da criança.” Por outro lado Nettleton (2001), vai-nos dizendo “que os atletas proficientes possuem um conhecimento experiencial de jogo mais aprofundado, têm uma “imaginação estratégica” que lhes permite prever os futuros padrões de movimento e foram expostos, enquanto crianças, a um vasto leque de jogos de equipa.” Assim, e como diz Konzag (1991), “para a realização dos movimentos exigidos pela prática dos jogos desportivos, é necessário, por um lado, que as capacidades coordenativas e condicionais possam exprimir-se a um certo nível, e, por outro lado, que estas últimas possam ser desenvolvidas pelo próprio jogo”, pelo facto de que “as capacidades dos atletas são específicas relativamente a uma tarefa ou a uma actividade” (McGown, 1991). Atendendo aquilo que foi dito anteriormente estamos de acordo com Tani (2001b), que diz “As necessidades do desporto são muito complexas, envolvendo componentes físicos, motores, cognitivos, psicológicos e sociais. A iniciação desportiva apropriada está relacionada com a associação entre essas necessidades e o estágio de desenvolvimento em que a criança se encontra”.
Torna-se assim importante, entre outras coisas, tomar “em consideração determinadas características dos jogos desportivos, tais como a complexidade, a variabilidade e a incerteza” (Peñas, 2002). A variabilidade é um dos aspectos mais importantes porque, as situações que ocorrem num jogo “sofrem mudanças permanentes e de uma forma rápida que exigem a tomada de decisões tácticas com rapidez e prontidão, que naturalmente irão a seguir condicionar as acções motoras executadas” (Konzag, 1991). Assim, “os exercícios que introduzam ou incluam os aspectos de variedade que normalmente se encontram no jogo, terão certamente maior transfer para as condições reais da competição” (McGown, 1991). Ou, como refere Buekers (2000), num seu artigo, para que exista uma automatização dos movimentos, tendo em conta a grande variabilidade que ocorre nas situações de jogo, será necessário que durante o treino exista uma grande variabilidade. Na medida em que as técnicas específicas têm de ser executadas, durante um jogo, em situações que estão sempre a variar.
Será então importante que durante o processo de treino sejam “criadas situações onde se verifiquem estímulos inesperados para o executante, antes de ele ter de deparar com tais estímulos na verdadeira situação de jogo” (McGown, 1991). O processo de treino deverá então incorporar “padrões de jogo em níveis cada vez mais sofisticados, conhecimentos específicos do jogo em acção, (...) jogos condicionados, exercícios de jogo, jogo de fase e funcional...” (Nettleton, 2001).
Para finalizar, e pensando que muita coisa ficou por esclarecer, deixamos um pensamento de Arthur C. Clarke (2001): “qualquer coisa que seja teoricamente possível será concretizada na prática, não importa quais sejam as dificuldades técnicas, desde que seja suficientemente desejada”.

3. Bibliografia
Bezerra, P. (2001). Pertinência do exercício de treino no futebol. Treino Desportivo, 15: 23-27.

Buekers, M.J. (2000). Can we be so specific to claim that specificity is the solution for learning sport skills? Int. J. Sport Psychol., 31: 485-489.

Clarke, A.C. (2001). Visões do futuro – Os limites do possível. Notícias editorial. Lisboa. Portugal.

Cruiff, J. (2000). Futebol filosofal. A Bola sete, 108 (Suplemento da edição nº 10363 de “A Bola”).

Ferreira, A.P. (2000). Da iniciação ao alto nível: um percurso para (re)pensar. Treino Desportivo, 9: 28-33.

Gambetta, V. (1993). Novas tendências na teoria do treino desportivo. Horizonte, 58: 123-126.

Hotz, A. (1999). O “timing” ou a arte de coordenar de maneira global a táctica, a técnica e a condição física. Treino Desportivo, 8: 9-12.

Konzag, I. (19919. A formação técnico-táctica nos jogos desportivos colectivos. Treino desportivo, 19: 27-37.

Marques, A. (1995). O desenvolvimento das capacidades motoras na escola – Os métodos de treino e a teoria das fases sensíveis em questão... Horizonte, 66: 212-216.

McGown, C. (1991). O Ensino da técnica desportiva. Treino desportivo, 22: 15-22

Nettleton, B. (2001). A tomada de decisão no desporto. Treino Desportivo, 16: 32-33.

Peñas, C.L. (2002). Processo de iniciação desportiva no futebol. Sequência dos conteúdos técnico-táticos. Horizonte, 102: 12-18.

Pereira, E. (1996). Futebol juvenil em Portugal: escola de formação? Horizonte, 73: 23-25.

Savelsbergh, G.J.P.; Kamp, J.V.D. (2000). Training must be as specific as possible, but not always! Insight (the F.A. Coaches Association Journal), 4: 48-49.

Tani, G. (1998). Liberdade e restrição do movimento no desenvolvimento motor da criança. In: R.J. Krebs, F. Copetti, T.S. Beltrame (eds.), Discutindo o desenvolvimento infantil, pp. 39-62. Edições SIEC, Santa Maria.

Tani, G. (2001a). Aprendizagem motora e esporte de rendimento: Um caso de divórcio sem casamento. In: V.J. Barbanti, A.C. Amadio, J.O. Bento, A.T. Marques (eds.), Esporte e actividade física: Interacção entre rendimento e saúde, pp. 145-162. Manole, São Paulo.

Tani, G. (2001b). A criança no esporte: Implicações da iniciação esportiva precoce. In: .J. Krebs, F. Copetti, M.R. Roso, M.S. Kroeff, P.H. Souza (eds.), Desenvolvimento infantil em contexto, pp. 101-113. Editora da UDESC, Florianópolis.

Tschiene, P. (2000). Il nuovo orientamento delle strutture dell’allenamento. SDS, 47-48: 13-20.

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